Quarta-feira, Maio 30, 2012

Retrato 3x4

Como estou sem tempo para produzir textos e 
somente alguns relâmpagos emendados em suspiros  frenéticos rabiscam de meu lápis, 
continuarei postando pequenas coisas, 
que ao meu ver não deixara isto aqui vazio, agradeço a visita de todos! 
Um abraço!
Foto de Helmut Newton. Claudia Schiffer para a revista Vanity Fair. Mônaco, 1992

Laura me esperava com uma arma na mão. 
Cabelo penteado, vestido de couro apertado, cheiro de rosas. 
'Atenção!' 
Olhei o azul do céu, 
'Te amo!', 
Queimara minhas retinas e esquecera o estalo. 
Uma pressão começara queimar no peito...



Terça-feira, Maio 29, 2012

Escrever É Apenas Narrar?, por Itaú Cultural


A Mesa "Escrever É Apenas Narrar?" com João Silvério Trevisan, Joca Reiners Terron, Nelson de Oliveira, Paulo Scott, Rubens Figueiredo e mediação de Paulo Werneck.

A representação do real ainda tem espaço na contemporaneidade ou contar uma história
 já não é mais contemporâneo? Qual é o espaço da narrativa num momento em que, 
ao que parece, a forma precisa ser constantemente reinventada?

***
Breve resumo da primeira parte


Primeiramente o João Silverio Trevisian, explicita sobre o seu romance Rei do Cheiro, levantando a questão: "Quem é que narra?" Chegando a dizer que foi capaz de eliminar o 'narrador onisciente ou neutro' de seu romance, pois acredita que a literatura contemporânea esteja num esgotamento e em um efeito regressivo com os recursos da narrativa ficcional. De modo que ao explicar os comportamentos da escrita do século XX, fala da sua repulsa pelo parâmetro de excelência, louvado em exaustão pelos escritores contemporâneos, na utilização do "narrador neutro". 

Rubens Figueiredo acredita que ao longo das décadas a literatura decidiu se voltar para si, apostando na linguagem da renovação em si mesmo. Porém, acredita que a dinâmica dos processos narrativos da literatura deveria abarcar de outras linguagens e não apenas alimentar-se de si.

O Nelson de Oliveira diz que uma das suas principais preocupações é a necessidade da literatura em se renovar, de modo que os escritores vivem numa ânsia da recriação da linguagem para conseguirem a sua originalidade. Já que inventar e ser um Vanguardista estaria no primor de tornar-se um clássico(obra/autor).

Paulo Scott acredita que a narrativa esta fadada a exaustão e a literatura sendo a própria escrita, não haveria para onde fugir. 

Joca Reiners Terron acredita na não-narrativa, o calar. A existência da banalização da narrativa estaria consumindo a si mesma. Gerando uma conspiração de que tudo deve ser narrado e que todos querem ser narradores. 

Via: Itaú Cultural

Segunda-feira, Maio 28, 2012

A liberdade de ver os outros, por David Foster Wallace

***O engraçado é encontrar alguém que expresse tão bem o que tenho pensado ultimamente... talvez eu esteja feliz em saber, que não sou o único a escutar uma voz a sussurrar: "Isto é água, isto é água." e como o próprio diz: "É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro." Este texto foi tirado de seu discurso para formandos do Kenyon College, há três anos.

David Foster Wallace
David Foster Wllace nasceu em Ithaca, Nova York, em 1962 e cresceu em Illinois, onde ele era um jogador de tênis júnior regional. Ele recebeu certificado de bacharel em filosofia e artes Inglesa pelo Amherst College e escreveu o que se tornaria seu primeiro romance, The Broom of the Sistem, como sua tese de Inglês superior. Ele recebeu um mestrado de artes plásticas da Universidade de Arizona em 1987 e rapidamente prosseguiu no trabalho de graduação em filosofia na Universidade de Harvard. Seu segundo romance, Infinite Jest, foi publicado em 1996. Wallace ensinava redação criativa no Emerson College, Illinois State University, e Faculdade Pomona, e publicou uma coleção de histórias da Girl with Curious Hair [Garota com cabelos curiosos], Brief Interviews with Hideous Men [Breves Entrevistas com Homens Hediondos], Oblivion [Esquecimento], as coleções de ensaios A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again [Uma Coisa Divertida que Supostamente Eu Nunca faria novamente], e Consider the Lobster [Conside a lagosta]. Ele foi premiado com o MacArthur Fellowship, o Prêmio Literário Lannan, e o Prêmio Whiting Writers ', e foi nomeado para o Usage Panel da The American Heritage Dictionary of the English Language. Ele se enforcou em 2008. Seu último romance,The Pale King [O Rei Pale], foi publicado em 2011.


***


Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?



Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar" significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.


Quarta-feira, Maio 23, 2012

Incubus, por Wagner Bezerra

Victor Hugo e a angústia do exílio. Guernsey, 1853. Foto de C. Hugo A. Vacquerie. 


Tremia e transpirava apesar de toda aquela clareza e de todo frio. 
Agitava-se em agonia num frenesi constante. 
A luz, crescia sem parar. 
De súbito acordar, contatou a sede e o medo de amar.

Domingo, Maio 20, 2012

Trecho de Paciência, por Bernado Soares

O video talvez seja só um adendo para o texto de Fernando Pessoa...


Nomeado pra o Vimeo Award!
Curta gravado com um telefone Nokia N8. Vencedor da competção Nokia Shorts  2011.

Diretor: James W Griffiths
Produtor: Kurban Kassam
Diretor de Fotografia: Christopher Moon
Editor: Marianne Kuopanportti 
Sound Design: Mauricio d'Orey
Música composta por: Lennert Busch

Consiga a música no iTunes: http://tinyurl.com/6acl6yp

***

Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo, (possuímos apenas a nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado, tornar-se-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento do outro-ente, desapareceria. 

Possuímos a alma? — Ouve-me em silêncio — Nós não a possuímos. Nem a nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e alma há o abismo de serem almas. 

Que possuímos? que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que possui dele? Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer. A posse de um corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celulada e gordurosa; o beijo não toca na beleza da boca, mas na carne úmida dos lábios perecíveis em mucosas; a própria cópula é um contato apenas, um contato esfregado e próximo, mas não uma penetração real, sequer de um corpo por outro corpo... Que possuímos nós? que possuímos?


As nossas sensações, ao menos? Ao menos o amor é um meio de nos possuirmos, a nós, nas nossas sensações? é, ao menos, um modo de sonharmos nitidamente, e mais gloriosamente portanto, o sonho de existirmos? e, ao menos, desaparecida a sensação, fica a memória dela conosco sempre, e assim, realmente possuímos. Desenganemos até disto. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não fales. A memória, afinal, é a sensação do passado... E toda a sensação é uma ilusão...

— Escuta-me, escuta-me sempre — Escuta-me e não olhes pela janela aberta a plana outra margem do rio, nem o crepúsculo (...), nem esse silvo de um comboio que corta o longe vago (...) — Escuta-me em silêncio.

Nós não possuímos as nossas sensações... Nós não nos possuímos nelas.

(Urna inclinada, o crepúsculo verte sobre nós um óleo de (...) onde as horas, pétalas de rosas, bóiam espaçadamente.)


*PESSOA, Fernando. Livro do Desassosego: composto por Bernado Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Editora: Companhia das Letras, 1999. (p. 329-30)

Domingo, Maio 13, 2012

Conversas jungianas

Todo poeta acredita na força das palavras, mas no fundo sente que está sempre diante de uma densa lucidez, como se ao embarcar de rumo a estação esperada descobrisse que no meio da ação construirá uma armadilha viciada. E acreditar em tal forma abstrata compelindo vida numa concretude de ilusão desmensurada, pode ferir a alma mas também enriquece/enobrece o espírito. Já que esta ação, chamada por alguns de retardatária, ou simples devaneios de um lúcido em meio a um mundo de "carentes de loucura", tem um certo fim de corromper o ser social para revelar a complexidade metafisica da Psiquê humana...


Fragmento da preparação de um romance

Suicídio coletivo de búfalos

Quando o amor corroí a alma, o corpo adormece sob a sombra de uma lágrima nefasta...